António Manuel Ribeiro – As Canções da Casa Escura

António Manuel Ribeiro – As Canções da Casa Escura

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Em pequenino, como na foto da capa, a minha mãe dizia que eu era um miúdo traquinas, irrequieto, sempre a inventar, a saltar, a partir um braço (logo aos 5 anos) quando me lancei da cobertura do viveiro dos piriquitos (acho que eram piriquitos, mas podiam ser canários, a paixão do meu pai funcionário público e tenor amador) e fracturei o antebraço direito. Fui tratado a preceito no velho hospital de Almada, esperneando à vista de uma seringa, sujeito às dores, ao gesso branco e aos mais velhos a segurarem-me esparramado na marquesa, naquele lugar de cheiros desinfectados encostado aos Paços do Concelho da cidade.
Um dia, no final de uma tarde invernosa, levaram-me ao doutor Grilo, o pediatra almadense que terá cuidado do crescimento de 95% da malta do meu tempo, e a minha mãe tinha uma fisgada: que o senhor doutor me desse um comprimido (calmante?) para estar sossegado, sentado numa cadeira, encafuado no sofá.
Receoso e de coração galopante, calado e tremelicas aguardei o veredicto – a pequena estatueta do padre Cruz iluminada pelo candeeiro sobre a secretária olhava-me com severidade. Mas foi a minha mãe que recebeu de receita um raspanete de que ainda hoje guardo o tom na memória.
De estatura baixa e jovial, vi o doutor Grilo sair de trás da ampla secretária de madeira, postar-se à frente da minha mãe e ralhar: «Oh Florbela, tenho aqui mães desesperadas com os filhos afogados em maleitas e tu vens-me pedir para tirar a vivacidade e a energia ao teu filho, francamente. Deixa-o correr, é sinal de que tem saúde».
Saímos do consultório e fomos a pé até à casa, no alto da colina de Almada, onde nasci. Derrotada caminhava, resmungando – a minha mãe não ficara convencida.
Para tentar colar-me ao assento e ao tédio, a minha mãe criou um “papão” e uma “casa escura”, o primeiro para me domesticar pela sua figura horrenda (ela vestia-se de trapos e assustava-me à janela virada para o quintal), e o segundo como lugar de desterro num quarto ao fundo da casa, sem janela, na escurtidão. Sobrevivi.
Em As Canções da Casa Escura reúno canções que fui guardando para o tempo certo, espécie de colheita em repouso, sem barrica de carvalho. Chegaram até hoje; juntei-as agora e adoro a sua coerência, vindas de diferentes ilhas da inspiração e dos episódios que vamos visitando nesta fisicalidade.
Solitário gravei, num período de confinamento social por imposição sanitária.
António Manuel Ribeiro

Bando musical que participou neste registo

António Côrte-Real
David Rossi
Fernando Delaere
Fernando Rodrigues
Ivan Cristinao
João Beato
Luís Espírito Santo
Luís Simões
Manuel Faria
Mauro Carmo
Miguel Ângelo
Nuno Flores
Nuno Oliveira
Rui Almeida
Rui Padinha
Tim

Ficha técnica
Luís Espírito Santo (bateria)
Fernando Delaere (baixo)
Rui Padinha (guitarras acústicas de 6 e 12 cordas, guitarra eléctrica)
Manuel Faria (piano)
AMR (voz, guitarra acústica)

Carlos Jorge (técnico de gravação), estúdio Tcha Tcha Tcha, Miraflores (1996)
João Martins (mistura), estúdio Ponto Zurca, Almada (2021)

Peso 120 g
Artista

António Manuel Ribeiro

Label

AimRa

Ano

2021

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